As emoções
- Anna R.F.Kopper
- 24 de mar. de 2023
- 3 min de leitura
As emoções são fenômenos que consideramos universais-singulares. Isso quer dizer que há um componente geral nelas, que perpassa todas as pessoas, e é construído social e culturalmente, podendo ser localizado e descrito em termos de função histórica. Também, envolver reações psicofísicas que são mais ou menos comuns a todas as pessoas que sentem determinada emoção. Isso permite o reconhecimento da emoção e sua descrição em termos mais objetivos.
E, também, que é um fenômeno singular, experimentado por cada pessoa em sua vida de relações de uma forma única e, às vezes, inexpressível em palavras.
Neste movimento de ser um fenômeno universal-singular, social e culturalmente somos incentivados a manter uma "postura" racional, pragmática e "neutra" nas nossas relações, especialmente nas que envolvem o fazer laboral e a cognição, considerando aí o estudo, aprendizagem, ensino, trabalho. Com isso, nos exigimos como se fosse possível descolarmos as emoções e sentimentos dos nossos atos e raciocínio. Como se fosse possível nos compartimentalizarmos.
Há emoções que são consideradas e esperadas para as crianças, outras que têm lugar apenas para o gênero masculino, e outras que são consideradas do universo feminino.
Nesta racionalidade, pessoas que demonstram e manifestam suas emoções de forma mais declarada são taxadas de muitas coisas. E, normalmente, são vistas como inferiores e fracas, ou ainda como sensíveis. Em todo caso, vistas como defeituosas. Sem autocontrole.
Mas somos - todos - seres emocionais e emocionados. E a emoção é uma manifestação do nosso ser no mundo, assim como a ação e a razão. É complexo pensarmos isso, especialmente em uma cultura e sociedade que se pretende "neutra", "racional" e na qual as emoções e os sentimentos são vistos como demonstração de fraqueza e de imaturidade.
Sendo a emoção parte da nossa condição de humanos, cabe-nos compreendê-la. Porém, como é possível a compreensão de um fenômeno tão complexo? Do ponto de vista filosófico e psicológico, há várias construções de teorias sobre o que são as emoções e qual sua função na vida humana.
Para o existencialismo, a compreensão é de que as emoções são manifestação de nosso ser no mundo, sempre de forma espontânea, ou seja, não é um processo refletido ou reflexivo. É uma reação imediata a um objeto emocionador (pessoa, coisa, lembrança,...). É, também, uma manifestação psicofísica, ou seja, não é só uma resposta fisiológica nem só uma manifestação mental. Toma nosso ser como um todo. E, ainda, é, ela mesma, dotada do seu sentido, o que quer dizer que é na emoção mesma - experimentada por essa pessoa neste contexto e frente a este objeto emocionador - que está a sua função e seu significado, visto que é parte da singularização.
Mas, cultural e socialmente, não somos incentivados nem aprendemos a reconhecer as nossas emoções. E isso é uma parte importante do trabalho do psicólogo clínico, a da psicoeducação.

Um caminho interessante de psicoeducação para se construir envolve:
a) Aprender a nomear as emoções, reconhecendo o que está sentindo, através da autoobservação e da apreensão de um vocabulário emocional. Nesse aspecto, é importante reconhecer o que sente em termos de intensidade, frequência e se o que está sentindo é adequado à situação apresentada ou não.
b) Validar as emoções. Essa parte é mais complexa, pois tendemos a querer que as manifestações emocionais sejam coerentes com a “norma” social, que diz que devemos ser racionais e não manifestar as emoções. Mas validar não significa concordar com a manifestação de comportamento desagradável ou violento. Significa identificar, reconhecer a possibilidade de se experimentar tal emoção, e acolhê-la enquanto necessária e parte de ser humano.
c) A partir daí, estabelecer estratégias mais assertivas de manifestação do comportamento vinculado à emoção, de forma que não traga mais sofrimento ou que faça mal a si ou aos outros seres.
Este processo de psicoeducação leva a uma habilidade conhecida como regulação emocional. Como você pode perceber, ele é contrário ao senso comum de controlar as emoções.
Entendo que o controle das emoções não facilita a nossa vida. Elas tendem a transbordar de forma não esperada em algum momento, com consequências sociais, físicas e de adoecimento que não conseguimos prever.
Entendo, por outro lado, que esse processo de regulação emocional não é fácil. Envolve um tema caro para a psicologia, que é a vulnerabilidade. Ou seja, a nossa capacidade de abertura para as situações sem as travas que nos colocamos para nos proteger do mundo. Mas, esse tema podemos trabalhar em outro texto.
Apesar de não ser fácil, aprender e desenvolver a habilidade de regulação emocional é possível. E traz uma abertura de possibilidades na construção de relações mais respeitosas e saudáveis, pois permite que a gente consiga diferenciar dentro dos processos emocionais nossos e das outras pessoas, o que é de fato de cada um.
Permita-se!



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